segunda-feira, setembro 12, 2016

Ílhavo - Aveiro - lugar ancestral

Rua no Centro de Ílhavo - Aveiro
Saí de Coimbra sob o efeito das descobertas que fiz, ainda com uma forte sensação de incerteza sobre o que eu deveria esperar de Aveiro. No entanto, ao respirar o ar úmido e frio, sentir a rápida chuva de inverno tocando meu rosto quando saltei do ônibus, pareceu reavivar aquele significado especial que eu fui construindo pelos meses de pesquisa genealógica. Obviamente já havia sentido a chuva fina invernal portuguesa e de outros lugares, mas naquele dia, naquele lugar, tudo retomava um sentido novo, um significado singular, na busca pelo "conhece-te a ti mesmo" do aforismo antigo. 
As ruas cobertas de paralelepípedos escuros, as calçadas de pedrinhas brancas, as casas de azulejos coloridos, elementos aos quais me habituara na cidade do São Salvador da Bahia, me davam uma nostalgia diferente, me envolvendo todo num manto de acolhimento da alma, por uma sensação tão palpável quanto os pelos dos braços se eriçando de emoção pela descoberta de tesouros perdidos. 
Registro de passaporte de meu bisavô expedido em 1904
O meu tesouro ali tinha valor sentimental, ao qual eu estava ligado por laços de sangue ancestral e que apenas recentemente havia descoberto pela certidão de nascimento de minha avó e por um site encontrado ao acaso na internet (mais informações sobre minhas buscas aqui: http://marciowaltermachado.blogspot.com.br/2016/05/arvore-genealogica-em-busca-das-origens.html). Daquela cidade onde a vida parecia caminhar vagarosamente, tranquilamente, como as nuvens que corriam o céu, viera para o Brasil um dos meus bisavôs paternos em busca de fortuna e/ou. quem sabe, de amores, encontrando os dois na cidade da Bahia. Agora, eu fazia o movimento inverso, buscando apenas conhecer a história do homem que pela década de 1890 decidira, pela primeira vez, deixar sua cidade natal para desbravar o oceano e fazer história, mas sobre quem eu não conhecia muito, a não ser pelos registros das certidões de seus ancestrais, por um ou outro anúncio na seção de negócios de um jornal baiano dos anos de 1907-1910, e de algumas fotos no álbum de família de minha tia.
Foto do álbum de Família
Uma dessas fotos, bem envelhecida, tinha uma legenda que dizia: "Os filhos de Berardo Rocha saudando seu pai". No entanto, por mais que olhasse aquele retrato, não conseguia reconhecer minha avó ou seus irmãos em nenhuma das crianças que ali posaram, imortalizadas, para a posteridade. Além disso, na foto havia apenas uma menina, mais velha entre todos, que com absoluta certeza não seria minha avó, apesar de minha tia insistir que um daqueles pequenos era sua mãe. Apenas quando cheguei a Aveiro e por indicação do meu amigo, o senhor Fernando Martins, resolvi o mistério da fotografia indo ao Arquivo Distrital. 
No Arquivo Distrital de Aradas eu descobri, com a ajuda dos simpaticíssimos funcionários do lugar, que meu bisavô Berardo Rocha tinha ficado viúvo de seu primeiro casamento com Ângela Alves Bonjardim, e que após seu falecimento, ele levou os filhos para Portugal para morarem com os avós, voltando ao Brasil em seguida para continuar cuidando de seus negócios e, pouco tempo depois, casar-se com minha bisavó Irma Júlia de Almeida Monteiro. 
Lá no Arquivo de Aradas, também tive acesso aos nomes das crianças que meu bisavô deixara em Portugal com os seus pais - cinco filhos, conforme mostrava a fotografia. A informação caiu como uma bomba, não no sentido devastador da expressão, mas uma bomba de espanto e felicidade - pois isso queria dizer que a minha família tinha crescido, que minha avó tinha irmãos que, ao que parece, ela não conheceu, e que agora eu não estaria apenas procurando por aqueles que já há muito haviam partido. Mas pelos vivos que compartilhavam comigo os mesmos ancestrais. 

Uma lápide, uma lira, um encontro
O senhor Fernando Martins me havia indicado que no cemitério de Ílhavo havia um jazigo singular por ser encimado por uma lira, em homenagem a um músico da cidade falecido no século passado, mas cujo nome ele não sabia. Tendo a informação de que meu trisavô era músico, se acendeu em mim aquela esperança meio tênue que nos chega quando queremos nos apegar a algum pequeno detalhe que nos traga uma resposta para algo que não sabemos alcançar. Por isso, a primeira coisa que fiz ao chegar ao Ílhavo depois de procurar a câmara municipal e o cartório da cidade, que ficam no mesmo prédio, foi me dirigir à necrópole.
No caminho, por um desses motivos que a gente não compreende direito, decidi puxar conversa com
Pia batismal da igreja de S. Salvador do Ílhavo
um senhor que estava sentado na praça. Ao lhe contar meu caso, ele logo se interessou em me ajudar e me apresentou ao seu amigo que conhecia muito da história e da gente do Ílhavo. E lá ficamos os três: eu, o senhor Duarte e o senhor Antônio Bizarro a conversar por horas sobre a cidade e as pessoas que supostamente teriam ligação comigo. A certa altura da conversa, meus amigos se despediram de mim, e o senhor Antônio se ofereceu a me levar até a rua do cemitério para que pudéssemos conversar mais um pouco e para que eu conhecesse a igreja onde meus ancestrais foram batizados e casados por várias gerações. Lá chegando, ele se despediu com a promessa de continuar procurando por meus parentes a partir daquele dia.







Mais uma vez o cemitério guardava emoções
A andada foi curta, e, logo que cheguei, passei a percorrer avidamente as lápides e jazigos procurando, como quem buscava um baú de jóias, a tal campa com a lira. Apesar de o cemitério ser informatizado - há um terminal de computador ao alcance do visitante -, só depois de andar muito consegui encontrar a referida lápide. Ver o nome sob aquele símbolo me encheu de uma felicidade tão grande que tudo o que consegui fazer nos próximos minutos foi apenas olhar o jazigo, conferir os nomes, e sentir um aperto no coração e um arrepio emocionado correr minha espinha. Aquelas pessoas que eram parte de minha família e que eu não tive o prazer de conhecer estavam ali e eu não podia dizer-lhes o quanto eu estava feliz em tê-los descoberto. Fiquei algum tempo, parado, absorto em pensamentos e perguntas que talvez jamais fossem respondidas.
Havia um vaso de flores lá, o que significava que alguém devia cuidar do jazigo. Quis deixar um bilhete sobre ele com meu nome e e-mail, mas pensei que a chuva logo o destruiria. Desisti da ideia e fui procurar as outras campas onde estariam os irmãos e tios de minha avó.
Enquanto caminhava entre uma lápide e outra, vi uma jovem senhora cuidando de um jazigo. Me aproximei, perguntei se ela, por acaso, tinha visto uma lápide com o nome de Álvaro Rocha, pois estava procurando há algum tempo e não conseguia encontrar. Ela demonstrou surpresa com a pergunta e me apontou onde ficava a tal campa. Agradeci e lá fui eu, coração a mil, querendo ver o rosto do meu tio-avô.
Meus trisavós e minha tia-avó Aurora
Lá estava ele, o jazigo de mármore, o nome e a foto. Parei surpreso, procurei naquele rosto traços de minha avó, de meus tios. A senhora se aproximou de mim. Perguntou se era aquela lápide que eu procurava mesmo. Eu lhe mostrei os nomes que tinha em mãos e as informações que conseguira no Arquivo de Aradas e na Junta de Freguesia. Ela sorriu e me disse: "Pois se é este o seu parente, ele também é meu parente, irmão do meu pai". Os momentos que se seguiram pareceram infindáveis. Sabe quando ficamos mudos, tentando entender o que está acontecendo, ao nosso redor tudo perde o som e só conseguimos nos concentrar na frase "como assim?" sem conseguir pronunciar nada? Foi isso mesmo o que aconteceu. Mas a Joana quebrou o silêncio me explicando quem era aquele senhor, quem era ela e como ela estava surpresa em saber que teria um primo brasileiro. Conversamos um pouco e lhe passei meus contatos caso ela lembrasse de algo que confirmasse o parentesco, como a data de nascimento do tio em questão. Nos despedimos e ela me mostrou onde havia uma floricultura para que eu pudesse fazer minha homenagem aos meus trisavós João da Rocha Carolla e Maria Dias do Rosário.
A floricultura Lady Flor fica ao lado do cemitério. Sua dona, a senhora Laíde, se emocionou ao saber de um brasileiro que tinha saído de tão longe em busca de sua história e, com todo o carinho de uma avozinha portuguesa, me fez um arranjo com lindas flores verdes e amarelas para que eu homenageasse os meus mortos. Conversamos muito e eu descobri que além de florista e talentosa nos arranjos das flores, aquela senhora era também poetisa! A conversa nos rendeu grandes momentos, após os quais voltei à campa, depositei meu arranjo ao lado do outro que lá estava e parti de volta à Coimbra. Feliz da vida e com a sensação de dever cumprido.
Ao chegar em Coimbra, vi uma multidão de mensagens enviadas no Facebook pelo marido de Joana, o Antônio, me saudando e comentando sobre a imensa surpresa e felicidade de ter descoberto um provável primo brasileiro. Ele descrevia tanta felicidade que eu fiquei emocionado à décima potência. Marcamos no dia seguinte de nos encontrarmos em Aveiro para irmos ao cartório confirmar, nos documentos que lá houvessem, o nosso parentesco.
Mas a bem da verdade, Antônio e Joana me trataram com tanto carinho, foram tão imensamente calorosos comigo, que agora pouco importava o que os documentos poderiam dizer. Laços de sangue ou não eu havia encontrado neles uma família, e um cantor de fado maravilhoso!
Recepção calorosa em Aveiro 
Ainda me lembro que no dia anterior à minha volta ao Brasil, nos encontramos no Fórum Aveiro e lá pude ouvir o Antônio cantar um fado feito pelo Vinícius de Morais para Amália Rodrigues cantar, "Saudades do Brasil em Portugal". Pois em Aveiro, posso dizer que o Poetinha Vinícius sabiamente dissera um dia: "A vida é a arte dos encontros" e dos abraços calarosos.
A propósito, o senhor Antônio Bizarro não esqueceu sua promessa. Num próximo post contarei o quanto valeu a pena ter deixado a timidez de lado e conversado com aqueles senhores que estavam na praça de Ílhavo. Maravilhosas surpresas pelo caminho...

Gostaram? Então divulguem.

P.S.: Obrigado a todos pela divulgação dos posts anteriores, especialmente aos grupos de genealogia do Facebook. Com sua ajuda tenho tido gratas surpresas.



sexta-feira, setembro 02, 2016

Um Lugar chamado Covelos - Foz de Arouce - Parte II

Quando o ônibus parou na entrada de Covelos, o dia estava muito nublado e a névoa ainda não tinha se dissipado. A estrada onde eu estava era deserta. Do lado oposto à parada de ônibus havia algumas casas e um prédio de apartamentos, mas as janelas e portas estavam fechadas. 
Atravessei a rua sem acreditar direito que estava ali, diante da vila de Covelos de onde vinha um dos meus trisavós maternos e parte de seus ancestrais. 
A vila de Covelos era um lugar totalmente desconhecido para mim até que eu iniciei minhas pesquisas genealógicas. Aliás, não somente ela, mas todos os outros lugares de onde o ramo português dos meus ancestrais saiu - exceto por Lisboa e Porto. Estar ali, portanto, era ver materializado diante de mim o nome ao qual me havia familiarizado pelos livros de batismo, casamento e óbitos da igreja católica, cujas páginas li e reli em busca de meu ancestral e seus ancestrais. 
Uma olhadela rápida e à distância me dizia que aquele lugar não mudou muito desde o dia 21 de
agosto de 1877 quando meu trisavô Domingos embarcou no vapor Minho em direção à Bahia. Apenas a fachada das casas e seus novos estilos traiam o passar dos anos. Contudo, nem todas elas haviam mudado. 
Nas paredes de pedra com suas portas e janelas faltantes ou pendentes, nas ruínas que davam ao lugar uma aura triste, melancólica, talvez chorosa por aqueles que há centenas de anos haviam indo embora, pude ter um vislumbre da vila na época da partida de meu trisavô. O lugar me deu um sentimento estranho de que eu estava em casa e ao mesmo tempo longe de casa. Especialmente porque, olhando de um lado a outro, não via ninguém, não ouvia ninguém, e nem as chaminés fumaçavam espantando o frio brando de inverno. 
Entre paradas para fotografias e anotações, um cachorrinho começou a me seguir, latindo, me levando até a gleba que sua dona arava. Cumprimentei a jovem senhora que repetia ali o que os ancestrais dela e os meus faziam há centenas de anos naquela mesma terra, e logo indaguei se ainda havia por lá uma família chamada Vaz Collaço. Num lugarejo como aquele provavelmente todas as pessoas se conheciam e a prática da boa vizinhança, que a gente vê nas pequenas cidades brasileiras, ali também deveria reinar. Ela logo me disse que sim e me apontou a casa da família que eu procurava.
O caminho de volta pela estrada parecia infindável. Titubeei um pouco, incerto se deveria ou não procurá-los. Afinal, o que eu iria dizer: "Olá, sou seu parente de quarto grau do Brasil, vim aqui lhe dar um abraço"? Os latidos do cãozinho que me seguia de volta pelo caminho ressoavam como as batidas incertas do meu coração. Eu realmente não sabia o que esperava ou o que queria dizer.
Parei diante do portão, esperei, ouvi meu fôlego, as palmas
batidas por minhas mãos, o silêncio que se seguiu. Quando já estava indo embora, uma senhora loira despontou na varanda me perguntando o que eu queria. Me apresentei, disse a que tinha vindo e perguntei se ela era da família Vaz Collaço. Ela confirmou, com a ressalva de que havia outra família de mesmo sobrenome na casa vizinha, mas que não tinham parentesco próximo - imagine que numa vila tão pequena, pessoas de mesmo sobrenome não têm parentesco próximo... tudo bem. Eu lhe disse que procurava por ancestrais de Maria Augusta, Domingos, Augusto, Maria Izabel e Abílio Vaz Collaço, todos filhos de José Vaz Collaço e
Maria Delfina de Jesus. Ela me disse que não conhecia essas pessoas e se despediu. Eu fiquei olhando pra cima, esperando alguma coisa que eu não sabia bem o que seria, uma sensação de pedra batendo no fundo do poço vazio ou de quando você, por horas e horas, faz um castelo bem bonito na areia da praia num dia lindo de sol e quando tudo está pronto, as pessoas tirando selfies no seu castelo, vem uma turma de crianças correndo e acaba com tudo e depois a onda chega e leva o resto - foi bem assim a sensação.
Baixei a cabeça, suspirei e fui descendo a ladeira, sem rumo certo, coração pesado, pensamentos perdidos, abandonado até pelo cachorrinho feio e chato que tinha me recebido com tanto barulho. Surpresa, porém: quando eu pensava que voltaria dali de mãos abanando, a mesma senhora veio correndo atrás de mim me dizer que
seu marido ouvira o que eu tinha dito e confirmara que a Maria Augusta Vaz Collaço era sua avó, mas que todo o resto da família morava agora na Guarda, e que eles não tinham mais nenhuma ligação entre si. Eu olhei pra ela, com aquele olhar do Gato de Botas do Shrek, pensando: me convide prum cafezinho, uma conversa com seu marido. Ela não entendeu. Mais uma vez me disse adeus e subiu seu caminho loiro de volta pra casa.

O consolo veio do cemitério de Foz de Arouce
Eu sabia, pelos assentos de óbito, que meus tataravós haviam sido sepultados no cemitério público de Foz de Arouce, por isso caminhei para lá . Quem sabe o silêncio dos mortos me diria mais do que a resposta dos vivos.
No caminho, fui pensando que se um dia alguém chegasse à porta da minha casa com informações sobre meus ancestrais, me mostrando documentos com datas de nascimento e óbito e sabendo tanto da história de minha família, eu iria pelo menos ter a dignidade de perguntar como ele se chamava. Mas, vá lá, nem todo mundo é curioso como eu, e aquela minha prima linda pelo menos teve compaixão de sair de sua casa ao meu encontro para me dizer que minhas pesquisas não tinham dado com os burros n'água. No mais, eu devo ser meio louco mesmo. Tão louco ao ponto de entrar no cemitério e sentir uma enorme emoção me tomar por dentro e por fora, lágrimas encherem os meus olhos, o coração acelerar e as pernas tremerem por ver diante de mim o jazigo do meu tataravô Antônio Dias Brandão. Aquele homem que foi um dos responsáveis pela minha existência, e cujos restos mortais estavam ali, tão perto de mim, numa terra que me era estrangeira e para a qual eu também era estrangeiro, mas à qual eu estava ligado irremediavelmente e para sempre em parte por causa dele. Ali dentro estava também minha tetravó e outros membros da família. Fiz uma prece, fotografei aquele jazigo tão singelamente bonito e caminhei em direção à vila de Foz de Arouce - sobre a qual já falei aqui: http://marciowaltermachado.blogspot.com.br/2016/03/europa-em-60-dias-coimbra-portugal-em.html. Depois era voltar a Coimbra e de lá ir a Aveiro continuar procurando o ramo português da minha família paterna - quem sabe os vivos de lá seriam mais receptivos.

P.S.: desculpem por escrever os nomes dos parentes em dada parte do post. Espero que com isso a narrativa não tenha sido quebrada. Fico na esperança que a curiosidade genealógica seja de família e que um dia, quem sabe, um descendente dessas pessoas venha parar aqui no blog ao buscar por seus ancestrais.

Gostaram? Então divulguem! 

Tervetuloa Turkuun! Turku, a cidade da margarida gigante.

“Perplexidade” – essa é a palavra que toma conta de nós quando ouvimos falar de ataques terroristas. Pois, é difícil entender, por exem...