sábado, outubro 15, 2016

Feliz Dia do Professor - Happy Teacher's Day!

Imagem retirada da internet - personagens de Maurício de Souza
“Cabeça, tronco e membros”, me lembro de, aos quatro ou cinco anos, estar sentado na sala da casa de minha tia-avó observando-a ensinar ciências a uma turma de alunos do curso primário e lhes dizer quais eram as partes fundamentais do corpo humano. Ela era professora aposentada, mas nunca deixou de transmitir – sem cobrar um tostão -  seu conhecimento em diversas disciplinas para aquele bando de crianças e adolescentes que se apinhavam na sala de sua casa. Pessoas financeiramente carentes que ali podiam aprender ou reforçar o aprendizado do currículo escolar.

Nesse mesmo dia em que minha memória se fixa, uma moça entrou apressada em casa de minha tia, acompanhada de uma mulher - que agora penso ter sido sua mãe -, e com um papel enrolado nãos mãos disse, interrompendo a aula, lágrimas escorrendo nos olhos de ambas: “Dona Zita, me formei!!!”. Lembro de minha tia, sorriso largo no rosto, fixando aqueles olhos azuis brilhantes sobre a moça, dizer: “Hoje é um dia extremamente feliz para nós três!”.

Antes de ir embora, a mãe da moça olhou para todos os meninos e meninas que estavam ali e falou algumas coisas sobre as quais o tempo já não me deixa ter clareza, mas dentre as quais uma frase nunca mais se apagou: “Essa mulher mudou a nossa vida para sempre!”.

Não sei por que motivo tem coisas que a memória grava e às quais se prende com tentáculos e ventosas, enquanto  d'outras ela simplesmente não deixa sequer vestígios. De qualquer forma, dessas lembranças que ficam, a que citei ainda hoje é clara como água pura na minha alma. Me lembro, inclusive, de ter sentido um imenso orgulho de minha velha e de chorar junto quando ela, emocionada pelo que a moça e sua mãe diziam, não segurou mais sua emoção e com sua vozinha mansa repetiu, satisfeita: “Hoje é um dia extremamente feliz para nós três!”.

Acho que foi bem a partir desse dia que eu comecei a sustentar em meu coração a vontade de ser como minha tia: ensinar às pessoas, transmitir meu conhecimento, viver para ajudar o próximo a subir os degraus da vida, “transformar suas vidas para sempre!”, assim como ela transformou a de tantos e também a minha com seu exemplo de amor ao próximo.

Pois ensinar, ter prazer em transmitir o que se conhece, querer que o outro saiba tanto ou mais do que a gente mesmo, mudar a vida das pessoas através do conhecimento, é um ato de amor. Muito mais amor ainda quando, inseridos numa nação que deixa a educação no fundo, bem fundo do quintal (salvo se você paga os olhos da cara para tê-la); num país onde jogadores de futebol (muitos deles sem instrução intelectual ou qualquer vestígio de altruísmo) são deuses gloriosos merecedores de reverência e honra idólatra em desfiles em carros públicos e fotos emoldurando as páginas de redes sociais e quartos de dormir de tanta gente; enquanto professores são vistos – via de regra - como cidadãos de terceira classe, relegados às lembranças magoadas e rancorosas daqueles que têm de fazer a lição de casa quando podiam estar jogando vídeo games.

No entanto, esses mesmos professores resistem todos os dias, e, por mais que a tarefa de querer viver para o outro, de desejar “mudar sua vida para sempre!”, de ver o outro sendo melhor hoje do que ontem, pareça um trabalho hercúleo e sem retorno, resistem impávidos como o colosso da história antiga e continuam em seu sonho quixotesco a acreditar que podem transformar o mundo toda vez que no fim de um semestre, em meio a milhares de pessoas a quem transmitiu o conhecimento adquirido em uma vida inteira, um/a alun@ lhe dá um abraço e lhe diz: “muito obrigado por tudo”.

“Cabeça, tronco e membros” não são apenas verdades entendidas nas aulas de ciências, mas também são uma representação daqueles que no dia 15 de outubro podem comemorar por mudarem a vida de alguém através do seu conhecimento, da sua força e do seu corpo.

Parabéns a todas essas pessoas que dedicaram sua vida a me ensinar desde antes da escola e até após a faculdade! Obrigado, vocês mudaram minha vida para sempre!
Parabéns aos 44 heróis que se formaram comigo no curso de Letras e que continuam a mudar a vida de tantos!
Parabéns aos meus alunos-professores que estão no caminho para mudar a vida de tantos para sempre!
Parabéns a nós professores que iremos mudar a vida de tantos – para sempre!

Imagem retirada da internet com referência à fonte




segunda-feira, setembro 12, 2016

Ílhavo - Aveiro - lugar ancestral

Rua no Centro de Ílhavo - Aveiro
Saí de Coimbra sob o efeito das descobertas que fiz, ainda com uma forte sensação de incerteza sobre o que eu deveria esperar de Aveiro. No entanto, ao respirar o ar úmido e frio, sentir a rápida chuva de inverno tocando meu rosto quando saltei do ônibus, pareceu reavivar aquele significado especial que eu fui construindo pelos meses de pesquisa genealógica. Obviamente já havia sentido a chuva fina invernal portuguesa e de outros lugares, mas naquele dia, naquele lugar, tudo retomava um sentido novo, um significado singular, na busca pelo "conhece-te a ti mesmo" do aforismo antigo. 
As ruas cobertas de paralelepípedos escuros, as calçadas de pedrinhas brancas, as casas de azulejos coloridos, elementos aos quais me habituara na cidade do São Salvador da Bahia, me davam uma nostalgia diferente, me envolvendo todo num manto de acolhimento da alma, por uma sensação tão palpável quanto os pelos dos braços se eriçando de emoção pela descoberta de tesouros perdidos. 
Registro de passaporte de meu bisavô expedido em 1904
O meu tesouro ali tinha valor sentimental, ao qual eu estava ligado por laços de sangue ancestral e que apenas recentemente havia descoberto pela certidão de nascimento de minha avó e por um site encontrado ao acaso na internet (mais informações sobre minhas buscas aqui: http://marciowaltermachado.blogspot.com.br/2016/05/arvore-genealogica-em-busca-das-origens.html). Daquela cidade onde a vida parecia caminhar vagarosamente, tranquilamente, como as nuvens que corriam o céu, viera para o Brasil um dos meus bisavôs paternos em busca de fortuna e/ou. quem sabe, de amores, encontrando os dois na cidade da Bahia. Agora, eu fazia o movimento inverso, buscando apenas conhecer a história do homem que pela década de 1890 decidira, pela primeira vez, deixar sua cidade natal para desbravar o oceano e fazer história, mas sobre quem eu não conhecia muito, a não ser pelos registros das certidões de seus ancestrais, por um ou outro anúncio na seção de negócios de um jornal baiano dos anos de 1907-1910, e de algumas fotos no álbum de família de minha tia.
Foto do álbum de Família
Uma dessas fotos, bem envelhecida, tinha uma legenda que dizia: "Os filhos de Berardo Rocha saudando seu pai". No entanto, por mais que olhasse aquele retrato, não conseguia reconhecer minha avó ou seus irmãos em nenhuma das crianças que ali posaram, imortalizadas, para a posteridade. Além disso, na foto havia apenas uma menina, mais velha entre todos, que com absoluta certeza não seria minha avó, apesar de minha tia insistir que um daqueles pequenos era sua mãe. Apenas quando cheguei a Aveiro e por indicação do meu amigo, o senhor Fernando Martins, resolvi o mistério da fotografia indo ao Arquivo Distrital. 
No Arquivo Distrital de Aradas eu descobri, com a ajuda dos simpaticíssimos funcionários do lugar, que meu bisavô Berardo Rocha tinha ficado viúvo de seu primeiro casamento com Ângela Alves Bonjardim, e que após seu falecimento, ele levou os filhos para Portugal para morarem com os avós, voltando ao Brasil em seguida para continuar cuidando de seus negócios e, pouco tempo depois, casar-se com minha bisavó Irma Júlia de Almeida Monteiro. 
Lá no Arquivo de Aradas, também tive acesso aos nomes das crianças que meu bisavô deixara em Portugal com os seus pais - cinco filhos, conforme mostrava a fotografia. A informação caiu como uma bomba, não no sentido devastador da expressão, mas uma bomba de espanto e felicidade - pois isso queria dizer que a minha família tinha crescido, que minha avó tinha irmãos que, ao que parece, ela não conheceu, e que agora eu não estaria apenas procurando por aqueles que já há muito haviam partido. Mas pelos vivos que compartilhavam comigo os mesmos ancestrais. 

Uma lápide, uma lira, um encontro
O senhor Fernando Martins me havia indicado que no cemitério de Ílhavo havia um jazigo singular por ser encimado por uma lira, em homenagem a um músico da cidade falecido no século passado, mas cujo nome ele não sabia. Tendo a informação de que meu trisavô era músico, se acendeu em mim aquela esperança meio tênue que nos chega quando queremos nos apegar a algum pequeno detalhe que nos traga uma resposta para algo que não sabemos alcançar. Por isso, a primeira coisa que fiz ao chegar ao Ílhavo depois de procurar a câmara municipal e o cartório da cidade, que ficam no mesmo prédio, foi me dirigir à necrópole.
No caminho, por um desses motivos que a gente não compreende direito, decidi puxar conversa com
Pia batismal da igreja de S. Salvador do Ílhavo
um senhor que estava sentado na praça. Ao lhe contar meu caso, ele logo se interessou em me ajudar e me apresentou ao seu amigo que conhecia muito da história e da gente do Ílhavo. E lá ficamos os três: eu, o senhor Duarte e o senhor Antônio Bizarro a conversar por horas sobre a cidade e as pessoas que supostamente teriam ligação comigo. A certa altura da conversa, meus amigos se despediram de mim, e o senhor Antônio se ofereceu a me levar até a rua do cemitério para que pudéssemos conversar mais um pouco e para que eu conhecesse a igreja onde meus ancestrais foram batizados e casados por várias gerações. Lá chegando, ele se despediu com a promessa de continuar procurando por meus parentes a partir daquele dia.







Mais uma vez o cemitério guardava emoções
A andada foi curta, e, logo que cheguei, passei a percorrer avidamente as lápides e jazigos procurando, como quem buscava um baú de jóias, a tal campa com a lira. Apesar de o cemitério ser informatizado - há um terminal de computador ao alcance do visitante -, só depois de andar muito consegui encontrar a referida lápide. Ver o nome sob aquele símbolo me encheu de uma felicidade tão grande que tudo o que consegui fazer nos próximos minutos foi apenas olhar o jazigo, conferir os nomes, e sentir um aperto no coração e um arrepio emocionado correr minha espinha. Aquelas pessoas que eram parte de minha família e que eu não tive o prazer de conhecer estavam ali e eu não podia dizer-lhes o quanto eu estava feliz em tê-los descoberto. Fiquei algum tempo, parado, absorto em pensamentos e perguntas que talvez jamais fossem respondidas.
Havia um vaso de flores lá, o que significava que alguém devia cuidar do jazigo. Quis deixar um bilhete sobre ele com meu nome e e-mail, mas pensei que a chuva logo o destruiria. Desisti da ideia e fui procurar as outras campas onde estariam os irmãos e tios de minha avó.
Enquanto caminhava entre uma lápide e outra, vi uma jovem senhora cuidando de um jazigo. Me aproximei, perguntei se ela, por acaso, tinha visto uma lápide com o nome de Álvaro Rocha, pois estava procurando há algum tempo e não conseguia encontrar. Ela demonstrou surpresa com a pergunta e me apontou onde ficava a tal campa. Agradeci e lá fui eu, coração a mil, querendo ver o rosto do meu tio-avô.
Meus trisavós e minha tia-avó Aurora
Lá estava ele, o jazigo de mármore, o nome e a foto. Parei surpreso, procurei naquele rosto traços de minha avó, de meus tios. A senhora se aproximou de mim. Perguntou se era aquela lápide que eu procurava mesmo. Eu lhe mostrei os nomes que tinha em mãos e as informações que conseguira no Arquivo de Aradas e na Junta de Freguesia. Ela sorriu e me disse: "Pois se é este o seu parente, ele também é meu parente, irmão do meu pai". Os momentos que se seguiram pareceram infindáveis. Sabe quando ficamos mudos, tentando entender o que está acontecendo, ao nosso redor tudo perde o som e só conseguimos nos concentrar na frase "como assim?" sem conseguir pronunciar nada? Foi isso mesmo o que aconteceu. Mas a Joana quebrou o silêncio me explicando quem era aquele senhor, quem era ela e como ela estava surpresa em saber que teria um primo brasileiro. Conversamos um pouco e lhe passei meus contatos caso ela lembrasse de algo que confirmasse o parentesco, como a data de nascimento do tio em questão. Nos despedimos e ela me mostrou onde havia uma floricultura para que eu pudesse fazer minha homenagem aos meus trisavós João da Rocha Carolla e Maria Dias do Rosário.
A floricultura Lady Flor fica ao lado do cemitério. Sua dona, a senhora Laíde, se emocionou ao saber de um brasileiro que tinha saído de tão longe em busca de sua história e, com todo o carinho de uma avozinha portuguesa, me fez um arranjo com lindas flores verdes e amarelas para que eu homenageasse os meus mortos. Conversamos muito e eu descobri que além de florista e talentosa nos arranjos das flores, aquela senhora era também poetisa! A conversa nos rendeu grandes momentos, após os quais voltei à campa, depositei meu arranjo ao lado do outro que lá estava e parti de volta à Coimbra. Feliz da vida e com a sensação de dever cumprido.
Ao chegar em Coimbra, vi uma multidão de mensagens enviadas no Facebook pelo marido de Joana, o Antônio, me saudando e comentando sobre a imensa surpresa e felicidade de ter descoberto um provável primo brasileiro. Ele descrevia tanta felicidade que eu fiquei emocionado à décima potência. Marcamos no dia seguinte de nos encontrarmos em Aveiro para irmos ao cartório confirmar, nos documentos que lá houvessem, o nosso parentesco.
Mas a bem da verdade, Antônio e Joana me trataram com tanto carinho, foram tão imensamente calorosos comigo, que agora pouco importava o que os documentos poderiam dizer. Laços de sangue ou não eu havia encontrado neles uma família, e um cantor de fado maravilhoso!
Recepção calorosa em Aveiro 
Ainda me lembro que no dia anterior à minha volta ao Brasil, nos encontramos no Fórum Aveiro e lá pude ouvir o Antônio cantar um fado feito pelo Vinícius de Morais para Amália Rodrigues cantar, "Saudades do Brasil em Portugal". Pois em Aveiro, posso dizer que o Poetinha Vinícius sabiamente dissera um dia: "A vida é a arte dos encontros" e dos abraços calarosos.
A propósito, o senhor Antônio Bizarro não esqueceu sua promessa. Num próximo post contarei o quanto valeu a pena ter deixado a timidez de lado e conversado com aqueles senhores que estavam na praça de Ílhavo. Maravilhosas surpresas pelo caminho...

Gostaram? Então divulguem.

P.S.: Obrigado a todos pela divulgação dos posts anteriores, especialmente aos grupos de genealogia do Facebook. Com sua ajuda tenho tido gratas surpresas.



sexta-feira, setembro 02, 2016

Um Lugar chamado Covelos - Foz de Arouce - Parte II

Quando o ônibus parou na entrada de Covelos, o dia estava muito nublado e a névoa ainda não tinha se dissipado. A estrada onde eu estava era deserta. Do lado oposto à parada de ônibus havia algumas casas e um prédio de apartamentos, mas as janelas e portas estavam fechadas. 
Atravessei a rua sem acreditar direito que estava ali, diante da vila de Covelos de onde vinha um dos meus trisavós maternos e parte de seus ancestrais. 
A vila de Covelos era um lugar totalmente desconhecido para mim até que eu iniciei minhas pesquisas genealógicas. Aliás, não somente ela, mas todos os outros lugares de onde o ramo português dos meus ancestrais saiu - exceto por Lisboa e Porto. Estar ali, portanto, era ver materializado diante de mim o nome ao qual me havia familiarizado pelos livros de batismo, casamento e óbitos da igreja católica, cujas páginas li e reli em busca de meu ancestral e seus ancestrais. 
Uma olhadela rápida e à distância me dizia que aquele lugar não mudou muito desde o dia 21 de
agosto de 1877 quando meu trisavô Domingos embarcou no vapor Minho em direção à Bahia. Apenas a fachada das casas e seus novos estilos traiam o passar dos anos. Contudo, nem todas elas haviam mudado. 
Nas paredes de pedra com suas portas e janelas faltantes ou pendentes, nas ruínas que davam ao lugar uma aura triste, melancólica, talvez chorosa por aqueles que há centenas de anos haviam indo embora, pude ter um vislumbre da vila na época da partida de meu trisavô. O lugar me deu um sentimento estranho de que eu estava em casa e ao mesmo tempo longe de casa. Especialmente porque, olhando de um lado a outro, não via ninguém, não ouvia ninguém, e nem as chaminés fumaçavam espantando o frio brando de inverno. 
Entre paradas para fotografias e anotações, um cachorrinho começou a me seguir, latindo, me levando até a gleba que sua dona arava. Cumprimentei a jovem senhora que repetia ali o que os ancestrais dela e os meus faziam há centenas de anos naquela mesma terra, e logo indaguei se ainda havia por lá uma família chamada Vaz Collaço. Num lugarejo como aquele provavelmente todas as pessoas se conheciam e a prática da boa vizinhança, que a gente vê nas pequenas cidades brasileiras, ali também deveria reinar. Ela logo me disse que sim e me apontou a casa da família que eu procurava.
O caminho de volta pela estrada parecia infindável. Titubeei um pouco, incerto se deveria ou não procurá-los. Afinal, o que eu iria dizer: "Olá, sou seu parente de quarto grau do Brasil, vim aqui lhe dar um abraço"? Os latidos do cãozinho que me seguia de volta pelo caminho ressoavam como as batidas incertas do meu coração. Eu realmente não sabia o que esperava ou o que queria dizer.
Parei diante do portão, esperei, ouvi meu fôlego, as palmas
batidas por minhas mãos, o silêncio que se seguiu. Quando já estava indo embora, uma senhora loira despontou na varanda me perguntando o que eu queria. Me apresentei, disse a que tinha vindo e perguntei se ela era da família Vaz Collaço. Ela confirmou, com a ressalva de que havia outra família de mesmo sobrenome na casa vizinha, mas que não tinham parentesco próximo - imagine que numa vila tão pequena, pessoas de mesmo sobrenome não têm parentesco próximo... tudo bem. Eu lhe disse que procurava por ancestrais de Maria Augusta, Domingos, Augusto, Maria Izabel e Abílio Vaz Collaço, todos filhos de José Vaz Collaço e
Maria Delfina de Jesus. Ela me disse que não conhecia essas pessoas e se despediu. Eu fiquei olhando pra cima, esperando alguma coisa que eu não sabia bem o que seria, uma sensação de pedra batendo no fundo do poço vazio ou de quando você, por horas e horas, faz um castelo bem bonito na areia da praia num dia lindo de sol e quando tudo está pronto, as pessoas tirando selfies no seu castelo, vem uma turma de crianças correndo e acaba com tudo e depois a onda chega e leva o resto - foi bem assim a sensação.
Baixei a cabeça, suspirei e fui descendo a ladeira, sem rumo certo, coração pesado, pensamentos perdidos, abandonado até pelo cachorrinho feio e chato que tinha me recebido com tanto barulho. Surpresa, porém: quando eu pensava que voltaria dali de mãos abanando, a mesma senhora veio correndo atrás de mim me dizer que
seu marido ouvira o que eu tinha dito e confirmara que a Maria Augusta Vaz Collaço era sua avó, mas que todo o resto da família morava agora na Guarda, e que eles não tinham mais nenhuma ligação entre si. Eu olhei pra ela, com aquele olhar do Gato de Botas do Shrek, pensando: me convide prum cafezinho, uma conversa com seu marido. Ela não entendeu. Mais uma vez me disse adeus e subiu seu caminho loiro de volta pra casa.

O consolo veio do cemitério de Foz de Arouce
Eu sabia, pelos assentos de óbito, que meus tataravós haviam sido sepultados no cemitério público de Foz de Arouce, por isso caminhei para lá . Quem sabe o silêncio dos mortos me diria mais do que a resposta dos vivos.
No caminho, fui pensando que se um dia alguém chegasse à porta da minha casa com informações sobre meus ancestrais, me mostrando documentos com datas de nascimento e óbito e sabendo tanto da história de minha família, eu iria pelo menos ter a dignidade de perguntar como ele se chamava. Mas, vá lá, nem todo mundo é curioso como eu, e aquela minha prima linda pelo menos teve compaixão de sair de sua casa ao meu encontro para me dizer que minhas pesquisas não tinham dado com os burros n'água. No mais, eu devo ser meio louco mesmo. Tão louco ao ponto de entrar no cemitério e sentir uma enorme emoção me tomar por dentro e por fora, lágrimas encherem os meus olhos, o coração acelerar e as pernas tremerem por ver diante de mim o jazigo do meu tataravô Antônio Dias Brandão. Aquele homem que foi um dos responsáveis pela minha existência, e cujos restos mortais estavam ali, tão perto de mim, numa terra que me era estrangeira e para a qual eu também era estrangeiro, mas à qual eu estava ligado irremediavelmente e para sempre em parte por causa dele. Ali dentro estava também minha tetravó e outros membros da família. Fiz uma prece, fotografei aquele jazigo tão singelamente bonito e caminhei em direção à vila de Foz de Arouce - sobre a qual já falei aqui: http://marciowaltermachado.blogspot.com.br/2016/03/europa-em-60-dias-coimbra-portugal-em.html. Depois era voltar a Coimbra e de lá ir a Aveiro continuar procurando o ramo português da minha família paterna - quem sabe os vivos de lá seriam mais receptivos.

P.S.: desculpem por escrever os nomes dos parentes em dada parte do post. Espero que com isso a narrativa não tenha sido quebrada. Fico na esperança que a curiosidade genealógica seja de família e que um dia, quem sabe, um descendente dessas pessoas venha parar aqui no blog ao buscar por seus ancestrais.

Gostaram? Então divulguem! 

domingo, maio 15, 2016

Árvore Genealógica - Em busca das origens - como ler certidões antigas

Caros amigos, o post a seguir é uma tentativa de ajudá-los a ler e entender os registros de batismo, casamento e óbito da igreja católica a fim de que a busca por informações de seus ancestrais possa resultar na melhor experiência possível. Procurei falar o mais simples e didaticamente no intuito de lançar luz sobre suas dúvidas - clique nas fotos para aumentá-las. 
Muito boa sorte sempre!
FOTO 1
O registro acima é a certidão de batismo de minha octavó. Ao ler o registro, o que vocês conseguiram identificar? Uma rápida lida nos mostra o nome e o lugar de origem (no canto superior direito) e na primeira linha vemos uma data, certo? Para acessar as outras informações da certidão, tais quais nomes dos pais, padrinhos e padre, bem como seus lugares de origem, é necessária uma lida mais detida e atenciosa. 
Observem agora esta outra certidão na qual consta o registro de casamento de seus pais:
FOTO 2
Sem levar em consideração a data que eu pus no topo da imagem, o que conseguimos identificar numa rápida lida? No canto superior direito o nome dos nubentes e seu lugar de origem, no final da página a assinatura do padre, correto? Mas, no corpo do texto, o que se pode identificar?

É justamente esta a primeira dificuldade que um pesquisador vai enfrentar: a leitura dos textos. No entanto, por mais difícil que ela possa parecer à primeira vista, como diz o ditado: "com o tempo e a prática tudo se ajeita".
Levemos em consideração que os assentos de batismo, matrimônio e óbito vão seguir uma forma clássica, um ritual estabelecido pelo Concílio de Trento. Sendo assim, há uma fórmula, seguida mais ou menos à risca, que uma vez aprendida deixará o texto mais fácil de ser lido mesmo quando ele não esteja otimamente legível. Também, poderemos contar com o fato de um padre ou escrivão passarem anos numa mesma freguesia, daí, conseguimos nos habituar e reconhecer sua grafia após alguma leitura.

Decifrando os Assentos de Batismo:
Nos assentos de batismo sempre constarão o nome da criança, o lugar de origem (em Portugal), a cor da pele (no Brasil) escritos nas laterais e/ou no texto, o nome dos pais, o nome dos padrinhos e a assinatura do padre. Em Portugal também, geralmente, se verifica os nomes dos avós e os lugares de origem deles e, às vezes, as profissões dos pais e avôs.
Via de regra, os registros portugueses são assim: "no dia tal, do mês tal, do ano tal, batizei e pus os santos óleos a tal pessoa, que nasceu no dia tal, filha legítima de Pai e Mãe, do lugar tal. Foram padrinhos 1, de tal lugar, e 2 de tal lugar, do qual fiz este assento (no dia mês e ano como ut supra) o qual/que assinei". Se a criança era filha de pais que não eram casados na igreja católica, o registro trará apenas o nome da mãe, sem indicar que a criança era "filha legítima"; se a mãe era solteira, dirá que a criança é filha de pai desconhecido ou incógnito. Nesses casos, algumas vezes, o registro dirá que a mãe era "lavadeira", geralmente (mas nem sempre) um eufemismo para prostituta.
No Brasil, por sua vez, os assentos são assim: "No dia tal, do mês e anos tais, batizei solenemente e (pus os santos óleos) a Pessoa, nascida em tal dia, mês e ano, filha legítima de Pai e Mãe, foram padrinhos Estes e tocou a coroa de Nossa Senhora Este".  Se a criança era filha de mãe solteira, africana escrava ou indígena, o registro trará apenas o nome da mãe indicando que a criança era "filha natural".

Ainda no Brasil, por causa da divisão da sociedade em termos étnicos, na lateral do documento  e/ou no texto constará a cor da pele da criança ou do adulto batizando. O batizando branco teria ou não a cor indicada, mas mestiços, africanos e indígenas sempre seriam identificados como: índio, cabra (um dos pais era mulato e o outro preto), creoulo (africano nascido no Brasil sob os cuidados dos seus senhores), pardo (mestiço cujo um dos pais era eurodescendente e cuja pele não é branca), fulo (negro ou mestiço de pele amarelada e cabelo avermelhado), pardinho (usado geralmente para um indivíduo de pele parda, geralmente adolescente, que era alugado para trabalho), africano/preto (homens/mulheres nascidos na África ou crianças nascidas na África ou nos navios negreiros). Alguns assentos trazem também a etnia do escravo: mina, gêge, nagô, banto, etc.
Outra informação importante em relação aos registros de batismo no Brasil é que nas laterais pode-se também verificar as palavras "parvo" (quando o batizando era criança) ou "adulto".

Observe abaixo o registro da igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, em Salvador, que ilustra, em caixas vermelhas, o que dissemos anteriormente:
FOTO 3


















Mário e Daniel eram brancos, filhos legítimos; Leocádio e Maria, pardo e cabra respectivamente, eram filhos naturais.

De posse dessas informações, ao procurar sobre seus ancestrais, o pesquisador deve sempre buscar os nomes dos batizandos, os nomes de seus pais e a data de nascimento e batismo. A busca pelos nomes dos padrinhos também é importante na pesquisa genealógica, pois geralmente estes eram parentes, provedores ou (no caso de pessoas não livres) senhores. Observe na foto 3, por exemplo, que o batizando Mário, meu bisavô, teve como padrinho seu tio paterno José Maria Dias Brandão e quem tocou a coroa de Nossa Senhora foi seu outro tio Abílio Dias Brandão.

Outra informação importante para traçar o perfil dos ancestrais, é identificar seu lugar de origem (no caso de Portugal) e a freguesia de seu batismo, pois era normalmente aí que ele residia e provavelmente onde seus pais se casaram e/ou onde sua mãe se batizou.










Aí temos um outro exemplo de certidão de batismo, de minha tetravó Alvina. No assento de batismo, podemos ler a data do batizado: 22 de outubro de 1837; sua cor: branca; a data de seu nascimento: 19 de fevereiro do mesmo ano; sua filiação legítima de Francisco Joaquim Caxoeira e Dona Luzia Maria de Santa Anna, e os nomes de seus padrinhos: o comandante das Armas Luiz da França Pinto Garcez e quem tocou a coroa de Nossa Senhora foi o tenente coronel Manoel Joaquim Pinto Pacca.

Como se pode ver, todos os registros de batismo até agora vistos, trazem as mesmas informações. Assim sendo, mesmo que os registros não estejam tão bem conservados e legíveis como esses acima, o pesquisador terá uma idéia de em que lugar do texto ele terá a informação que procura.

Decifrando os Assentos de Matrimônio:
Tal qual os registros de batismo, os assentos de matrimônio seguem também mais ou menos a fórmula estabelecida pelo Concílio de Trento.
Neles vão constar:  os nomes dos noivos (geralmente nas laterais e sempre nos textos), a data do casório, o lugar/freguesia de onde vêm, os nomes dos pais ou mãe (em Portugal, várias vezes, os nomes dos avós e algumas vezes a profissão dos pais e avôs), os nomes dos padrinhos e seus lugares/freguesias, mais a assinatura do padre ou pároco. No Brasil, ainda constará a informação de se os nubentes eram brancos ou não, e, se escravos, suas nações e os nomes de seus senhores.

Isso tudo introduzido geralmente pela fórmula:  No dia tal, do mês e ano tais, se receberam em matrimônio em minha presença (ou "de licença minha"), corridos os banhos (banhos = informações sobre o estado civil dos noivos, sua conduta, etc.)/ dispensados os proclamas (quando não havia a necessidade de correr os banhos) e sem impedimento algum, na igreja/paróquia/oratório particular na forma do sagrado concílio tridentino, o contrahente tal/Nome  (do lugar tal [se em Portugal]), filho legítimo de pais /natural de mãe/de pai desconhecido/de pai incógnito (do lugar tal [se em Portugal]), e a contrahente tal/Nome (do lugar tal [se em Portugal]), filha legítima de pais /natural de mãe/de pai desconhecido/de pai incógnito (do lugar tal [se em Portugal]), tendo como padrinhos Estes e como testemunhas Aqueles, do qual/que fiz este assento e assinei no dia, mês e ano ut supra.

Vejamos dois exemplos da minha própria árvore para tornar mais fácil o entendimento do que foi dito anteriormente. Comecemos pelo assento de casamento de minha tetravó Alvina, cujo batismo já vimos acima:


















Em verde se lê os nomes dos noivos: Antônio Joaquim Rodrigues Pinto e D. Alvina Luiza Caxoeira; Em roxo lemos a data do casório: 21 de fevereiro de 1857; sublinhado de preto vemos o lugar onde ocorreu o casamento: Oratório particular do excelentíssimo Barão de Pirajá; em laranja vemos os nomes dos padrinhos/testemunhas: o Barão e Baronesa de Pirajá e Sinfrônio Domingos dos Santos; em amarelo sabemos que os noivos eram brancos; em azul, que eles eram naturais desta cidade (de Salvador); e em vermelho vemos que são filhos legítimos do finado Joaquim Rodrigues Pinto e Dona Carolina Amália de Mattos; do finado Francisco Joaquim Caxoeira e Dona Luzia Maria Caxoeira.

Agora vejamos o registro de dois dos meus heptavós em Portugal:






















Em verde lemos os nomes dos noivos: Ascenço Martins e Joana Antônia de Sequeira; em roxo lemos a data: 09 de maio de 1735; sublinhado de preto vemos o lugar do casório: Igreja parochial de (São Miguel de) Foz de Arouce; em vermelho vemos os nomes dos pais dos noivos:  Manoel Dias, já defuncto, e Maria Martins (do lugar de Val d'Ayres - em azul); Manoel Antônio e Sebastiana Rodrigues, já defunctos (do lugar de Covellos - em azul); em laranja vemos os nomes dos padrinhos/testemunhas Joam Caetano, Manoel Simões, Vicente de Sequeira, do lugar de Covellos; e Leonardo de Sequeira, Tomé de Oliveira e Antônio Alves, do lugar de Foz de Arouce.

Assim, entendemos que todas as partes não destacadas podem ser consideradas acessórias, ou seja, não são de fato importantes para a obter a informação necessária sobre seus ancestrais. Dessa forma, toda vez que estiver diante de uma certidão de casamento antiga, procure direto pelas palavras que lhe digam quem eram seus ancestrais (nomes dos noivos, pais e padrinhos - os quais, via de regra, eram parentes) e as quais possam lhe dar suporte para montar sua história (data do casório, lugar onde este ocorreu, lugar de origem dos noivos e seus pais e padrinhos, etc.).


Decifrando os Assentos de Óbito:
Por mais mórbido que possa parecer, procurar informações nos registros de óbito é extremamente interessante e importante para o pesquisador. Através deles podemos ter um "fechamento" da história do parente estudado e saber sob que condições deu-se o seu falecimento, qual o status social desse parente, entre outros, a fim de podermos montar sua história.

A pesquisa dos documentos de óbito são também importantes do ponto de vista sócio-histórico, uma vez que nesses assentos podemos tomar conhecimento de pestes, guerras, etc. que assolaram o período em que nossos ancestrais viveram. Eu, por exemplo, descobri que houve um surto de cólera no Ílhavo (Aveiro, Portugal) em meados do século 18; e que no dia 25 de dezembro de 1810, dia de Natal, os franceses invadiram Foz de Arouce (Coimbra, Portugal) matando vários de seus moradores; mas que no mês de março de 1811, os moradores de Foz de Arouce, inclusive mulheres, pegaram em armas e mataram os combatentes franceses - está tudo registrado nos livros de assentos de óbitos das referidas freguesias.

Diferentemente dos assentos de batismo e matrimônio, os assentos de óbitos são extremamente curtos e fáceis de se ler, obviamente dependendo da grafia do padre.

Eles seguirão a seguinte fórmula:  data, nome, se era casado/a, solteiro/a, viúvo/a, idade, o que foi encomendo para o funeral, causa mortis (na medida do conhecimento médico da época), qual a cor de sua mortalha, se deixou filhos (alguns assentos não trazem esta informação), onde foi enterrado/a. Muitos assentos de óbito também trazem, na lateral, a informação "anjo" ou "inocente", indicando que o defunto era uma criança.

Vejamos dois exemplos de registros de óbitos no Brasil, sendo o primeiro o de minha tetravó Alvina, cujo batismo e matrimônio já lemos:







No canto superior esquerdo vemos seu nome: Alvina Luiza C. Pinto; no topo do texto vemos a data de seu falecimento: 22 de fevereiro do ano corrente (1879); entre as duas caixas em vermelho lemos a causa mortis: typho; sublinhado de vermelho (linha mais grossa) lemos o nome e a naturalidade: Ba(hia); em verde, sua idade: 41 anos; a seguir o nome do esposo: Antônio Joaquim Rodrigues Pinto; e, logo após, o lugar do sepultamento: Cemitério do Campo Santo.

O seguinte, é o registro de óbito de seu pai. Observem:
No canto superior direito lemos o nome: Francisco Joaquim Caxoeira. No topo do texto vemos a data: 7 de janeiro de 1851; sublinhado de vermelho a causa mortis: moléstia interna; em verde lemos a idade: 51 anos; a cor: branco; o nome da esposa: D. Luiza Maria Cachoeira. E o restante não sublinhado é o que nos mostra sua condição social através do rito da missa fúnebre e seu local de sepultamento: "encomendado pelo cônego  (que vestia pluvial), pelo sacristão e dezoito padres" - tudo isso era pago -, o defunto foi "amortalhado de hábito e enterrado no convento de São Francisco". 

Os assentos de óbito em Portugal dão o mesmo tipo de informação. 

Abreviações corriqueiras nos assentos de batismo, casamento e óbito:
Uma das coisas que mais me pareceram difíceis quando comecei minhas pesquisas foi interpretar as palavras constantes nos textos. Em boa parte dos assentos, os padres optam por fazer abreviações dos nomes, sobrenomes, meses do ano, títulos, etc. e isso pode ser um verdadeiro quebra-cabeças para quem se depara com um livro de registros pela primeira vez. Se, por exemplo, voltarmos à FOTO 1, no topo deste post, veremos que está escrito assim: "Aos dezoito dias do mês de outubro de 1683 eu baptizei a Anna fª de Antº Fez Forte e de sua mulher Mª Simoes do lugar de Algaça. PP Mel Miz f. de Antº Miz e Anna Miz mer. de Al. Fez do mesmo lugar de Algaça. Do que fiz este assento e o assinei Antº de Seixas".
Podemos observar que algumas dessas abreviações chegaram até nós hoje, como Mª para Maria e Antº para Antônio. Mas que raios é fª, Fez, Miz, Mer ou PP? Bom, fª = filha, Fez = Fernandes; Miz = Martins; Mer = mulher e PP = padrinhos

Observem agora esta outra certidão:

Lendo este assento de casamento de meus octavós, descobrimos que:
"Aos vinte e sete dias do mês de setembro de mil e sete sentos e nove se receberão em matrimonial en minha presensa nesta igrª de N. Sª da Assumpção de Semide Bento Simois fº de Antº Simois do lugar da Riba e de sua mer. Caterina Simois da fregª de Stª Mª da *Alifana de Poyares, e Escolastica Frª fª de Mel Antunes vendr de Semigde d'alem e de sua mer Antª Frª desta fregª e forão tts (...)"

No texto, as palavras abreviadas são: igrª = igreja; fregª = freguesia; Frª = Francisca; vendr = vendeiro (comerciante); tts: testemunhas.
*Na verdade, a Freguesia é Santa Maria de Arrifana, em Vila Nova de Poiares. Para mais informações sobre a freguesia, acesse nosso post: http://marciowaltermachado.blogspot.com.br/2016/03/europa-em-60-dias-coimbra-portugal-em.html

Segue uma lista com as abreviações mais comuns nos registros que encontrei de batismo, casamento e óbito:
7bro = setembro
8bro = outubro
9bro, Novbro = novembro
10 bro, = dezembro
Affo - affonso
Alexº. – Alexandre
Alz' = Alvares
Anta. – Antônia
Antes – Antunes
Anto = Antônio
Azdo = Azevedo
Brdo – Bernardo
C.na = Catarina
Carvo – Carvalho
Da = Dona
da Va = dita Vila
de prezte = presentemente
delegcas, deligas = diligências
Dis = Dias
Diz e Diz (com til sobre o i) = Diniz
do, da = Dito, dita
Dos dias = Domingos Dias
Dos, Das = Domingos, Domingas
Dtor = Doutor
E. R. Mce = espera receberá mercê
Evang’os =Evangelhos
feuro, feuro, Feuro = fevereiro
Fez – Fernandes
Fgra – freguesia
fo, fa = filho, filha
Fonca = Fonseca
Franco, franco, Franco, Frco, frco; Frca = Francisco, Francisca
Frco/ca – Francisco/a
frega ou fga = Freguesia
Frra, frra, Fera = Ferreira
Frz', ou frz' = Fernandes
Glz' ou glz' = Gonçalves
Hes – Henriques
Imo = Jerônimo
impedimto- = impedimento
in facie ecctiae = in facie ecclesiae (perante a igreja)
J – João
Janro, Janrro, Janr = janeiro
Je. – José
Jhs'., ihus'., Jhus. = Jesus
Joph. = Joseph ou José
l.o., ou legit.o, legita, legta, legta, legma = legítimo, legítima
Lço – Lourenço
Lxa ou Lixa = Lisboa
Ma = Maria
Ma dias = Maria Dias
Mda – Madalena, Magdalena
Mel = Manoel
Mgda – Margarida
minha lça = minha licença
Miz/s – Martins
miza = Misericórdia
Montro, montro = Monteiro
mor, mora = morador, moradora
Mrco = Março
Mz = Munis ou Martins
N. Sra = Nossa Senhora
nal = natural
nal da V.a = natural da vila
nascidos de hum ventre = filhos gêmeos
nesseco = necessário
P. C. = passar carta, dar autorização
pa = para
Pe = Padre
Po ,Po. = Pedro ou Pero
preztes = presentes
Prº de baixo – Pereiro de Baixo
Prra,prra, Pera = Pereira
pva - Paiva
q' = que
q' Ds'. guarde como deso. = que Deus o guarde como desejo
ribro = Ribeiro
Rois, Roiz, Roiz’ = Rodrigues
S.er = Senhor
Sagr. Con. trid. e Constoe(n)s deste Arc. = Sagrado Concílio Tridentino e Constituições deste Arcebispado
Seqra – Sequeira
SMq'Ds'., SMDs'. = Sua Magestade que Deus guarde
Snra. = Senhora
Suppte, suppte = suplicante
Teixra., teixra., teixra = Teixeira
testas ou tas = testemunhas
V. Illma e Rma = Vossa Ilustríssima e Reverendíssima
Va = Vila
VM, Vmce = Você, o Senhor, a Senhora
X = Cris (como em Cristo)

Xer = Xavier


Espero ter lançado uma luz na leitura dos seus documentos.

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quinta-feira, maio 05, 2016

Árvore Genealógica - Em busca das origens - Nomes e Sobrenomes Portugueses


Onomástica
substantivo feminino
1.relação, coleção, lista de nomes próprios.
2.ling estudo linguístico dos nomes próprios; onomástico, onomatologia [Compreende várias subdivisões, como a antroponímia, a astronímia, a mitonímia, a toponímia etc.].

Imagine que para falar com você em seu escritório as pessoas dissessem à sua secretária: "a mulher/o homem que tem cabelo curto, pesa tantos quilos, tem olhos pequenos, nariz adunco, pescoço curto e usa óculos, está?", e a secretária respondesse: "Você está falando da mulher/ do homem que tem cabelo curto preto brilhante, pesa tantos quilos, tem olhos pequenos meio arredondados, nariz adunco com um sinal na ponta, pescoço curto com duas dobrinhas, usa óculos redondos iguais aos daquele cantor ou está falando da mulher/do homem que...?". Além de demorar um século com os pormenores para descartar qualquer semelhança com outra pessoas, seria algo muito estranho, não é?  

Especialmente se lembrar daquela emoção que tomou você por inteiro quando chamaram seu nome na sua colação de grau ou uma premiação muito importante; ou quando o sacerdote/juiz de paz pediu que você repetisse o seu nome e fizesse seus votos de matrimônio para a pessoa amada; ou de como seu coração acelerou quando aquela pessoa especial falou seu nome para que todos ouvissem ou sussurrou-o em seus ouvidos; ou quando você, se sentindo só em algum lugar, ouviu uma voz conhecida lhe chamar.
Seu nome faz você se inserir no mundo, se diferenciar dos outros, interagir com a sociedade; transforma você em um individuo em meio à multidão de bilhões de outras pessoas, cria a sua identidade e faz com que você seja único e especial.

Por essa razão, os primeiros homens sentiram a necessidade de nomear os membros das suas famílias
e de suas tribos, de individualizar cada uma daquelas pessoas. Afinal, tão necessária quanto é para nós hoje, uma única palavra pela qual se pudesse identificar o sujeito era importante para que nossos ancestrais pudessem se referir a, interagir com, dissociar os membros do clã ou tribo uns dos outros.
Esses nomes, a princípio, eram palavras que representavam um momento marcante ou um feito, ou uma característica do indivíduo. Há na Santa Bíblia, por exemplo, dois episódios que ilustram bem isso: Moisés, "porque foi salvo das águas"; Jesus, "pois ele salvará o seu povo do seus pecados" (Yeoshua = Salvador).

Seu valor  na cultura humana é de uma relevância tão grande que os membros de algumas tribos indígenas americanas chegam a ter dois nomes próprios: um, com o qual ele é conhecido na tribo; e o outro que apenas é conhecido por sua mãe - pois caso algum mal espiritual lhe suceda, sua mãe poderá resgatá-lo no mundo etéreo sussurrando em seus ouvidos o nome que somente ela conhece. Os gregos, por sua vez, davam aos seus filhos nomes que os identificassem diante da sociedade até que eles os trocassem, depois de adultos, conforme algum feito heróico ou chamado espiritual. Tome-se por exemplo, a história de Héracles (Hércules), que se chamava Alcides (força física - lembrem-se que ele estrangulou duas serpentes enquanto ainda estava no berço) e que, devido ao vaticínio do oráculo de Delfos sobre as glórias que lhe adviriam depois dos 12 trabalhos impostos por Hera, tornou-se Héracles (Glória de Hera).

Ainda hoje, o costume de nomear os filhos por causas significativas ou traços físicos é mantido por povos aborígenes e/ou indígenas em todos os continentes.
Na sociedade de costumes modernos, no entanto, nomeia-se alguém por motivos diversos. Dá-se às crianças nomes que homenageiam ascendentes, heróis, ídolos; ou nomes que os tornem únicos no mundo. - Uma prima de minha mãe, por exemplo, chama-se Marb, sendo que cada uma dessas letras corresponde ao nome e sobrenome de sua avó paterna (Maria Antonieta Rodrigues Brandão), o que além de homenagear um ente querido, fez com que ela, sem sombra de dúvidas, saiba quando alguém quer lhe falar devido à singularidade do seu nome, afinal, quantas Marbs você conhece?
Outra forma de dar-se nomes às pessoas acontece por motivos de conversão à vida religiosa de vários credos, ou por carreira artística (Agenor de Miranda Araújo Neto - Cazuza) ou política (Luis Ignácio da Silva - Lula), e ainda por muitas outras razões, tal qual porque a pessoa não gosta do nome que os pais lhe deram ou porque acreditam que o apelido (alcunha, para os portugueses) que ganhou de amigos ou familiares e pelo qual é conhecido "pega melhor", etc.
Sendo como for, é o seu nome (dado ou escolhido) que o torna único no mundo mesmo que haja milhares de pessoas por aí que o compartilhem com você em formas e sons diferentes.

À propósito, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) fez uma pesquisa sobre a frequência do uso dos nomes no Brasil, a qual você pode checar aqui: http://www.censo2010.ibge.gov.br/nomes/#/search/response/569. Segundo eles, existem 466.140 Márcios, 67.207 Walteres. Fiquei curioso e fui ao Facebook ver quantos caras de nome Márcio Walter existem e achei 4 além de mim. 


A origem dos sobrenomes portugueses
Bom, centenas ou milhares de anos depois dos nomes próprios terem aparecido, começou a ser necessário o uso de uma outra palavra que identificasse o sujeito. Imagine que a lista de nomes disponíveis e aceitos pela convenção social era pequena, daí você pode pensar na confusão que era chamar seu filho ou seu irmão num grupo de 10 garotos de famílias diferentes que brincavam juntos e todos atendiam pelo nome de "Menino", ou se você precisasse ir ao juiz e denunciar seu vizinho cujo nome era "Próximo" como 7 dos 10 vizinhos que você tinha.
Para acabar com essa confusão, os povos antigos, como chineses e latinos, criaram nomenclaturas para diferenciar os nomes a partir do acréscimo dum outro (ou outros) nome(s). Os portugueses - que são o objeto do nosso post -, começaram a identificar pessoas homônimas de formas interessantes. Por exemplo, quando davam aos filhos o mesmo nome dos pais, a criança era chamada de "Novo/a" (o equivalente a Júnior ou Filho/a), e os pais eram chamados de "Velho/a" (a minha avó costumava chamar meu avô de Jaime Velho para diferenciá-lo de meu tio, Jaime Filho, reproduzindo, sem saber, um costume bem antigo). Daí, ao lermos sua certidão de casamento sabemos que Manoel Dias Novo (08.01.1748), meu hexa-avô, herdara o mesmo nome de seu pai, através de uma nomenclatura chamada "patronímico". Abaixo, listo algumas formas de sobre como apareceram os sobrenomes em Portugal, especialmente depois da imposição, pelo Concílio de Trento, dum segundo nome, ou nome de família, para toda criança batizada na igreja católica: 
O nubente (João Baptista Isac) tem como sobrenome o prenome do pai, Isac Pedroso (registro do livro de assento de casamentos da freguesia de São Pedro. SSa, Ba.)

Patronímicos: quando se referia aos filhos através do nome do pai. Por exemplo, João era filho de José, quando o padre escreveu seu assento de casamento ou óbito, ou alguém precisava identificá-lo, dizia: o João José (ou João, filho de José. Ainda hoje nas cidades do interior, principalmente, as pessoas dizem: você falou com o Felipe do João? (filho de João). Esse tipo de sobrenome ainda hoje resiste no Brasil. Por exemplo, tenho uma prima chamada Elizabete Duarte, também, há uma atriz brasileira chamada Mari Alexandre, tanto Duarte quanto Alexandre, que são prenomes portugueses, foram provavelmente ancestrais delas, seus nomes, portanto, são patronímicos.
Outra forma de patronímico português é feita através da sufixação de alguns nomes próprios a exemplo do que acontece em outros países europeus. Em Portugal, alguns nomes passaram a receber a terminação -ES e outros as terminações -IS/-IZ, -INS  para identificar a filiação. Por esta causa, João, que era filho de Pero se tornou João Peres;  Maria, que era filha de Lopo, se tornou Maria Lopes; Luciana, que era filha de Sancho, se tornou Luciana Sanches; Duarte, que era filho de Rodrigo, se tornou Duarte Rodrigues. Bem como Luiz, que era filho de Martim, se tornou Luiz Martins; Gustavo, que era filho de Simão, se tornou Gustavo Simoins, e, mais tarde, Gustavo Simões, e por aí vai.

Matronímico: quando os filhos são identificados pelo nome da mãe. Como por exemplo, Lucas de Paula, Cláudio Jovita.

Teóforos: nomes votivos a Deus, deuses, santos católicos ou anjos. João de Deus, Gabriel Santana (Santa Ana), Terezinha de Jesus, Eduardo Santa Bárbara, Francisco Saturnino (do deus Saturno), Danúbio Trindade (da Santa Trindade), Lucas Arcanjo, Jaciara dos Anjos, etc.

Toponímicos: quando o sobrenome evoca o lugar de origem ou de residência. Pedro Álvares Cabral (Pedro, filho de Álvaro, do lugar das Cabras), Antônio Francisco Lisboa (seu ancestral deve ter vindo dessa cidade), Demétrio Oliveira, Paulo Pinheiro, Lisa Carvalho, César (a)Moreira (porque seus ancestrais vinham de lugares que tinham como ponto de referência essas árvores), Leandro Almeida (alameda), Berardo Rocha, Rodrigo Rios, Frederico Dantas (do lugar das antas = dólmens), etc.

Antropomórficos: quando derivados de características físicas. Luíz Branco, Gustavo Mouro, Célia Forte, Marcos Penteado, Paulo César Grande, Lucas Barbosa (por causa da barba ruiva), Bruna Severo, Antônio Pinto/Carneiro (dócil), Ricardo Leão (bravo, forte, ou oriundo das cidades de Lyon - França- ou León - Espanha), etc.

Laborais: devido à profissão exercida. Pedro o Albardeiro, Carlos o Roldão, José o Tigeleiro, Antônio o Tecelão,  Paulo o Pastor, etc. Posteriormente os nomes perderam o artigo "o".

Entre outros, como por exemplo, em homenagem aos padrinhos, a criança recebia como último nome o prenome ou sobrenome de seu padrinho. Um dos meus trisavós, por exemplo, se chamava Domingos Ferreira da Silva Resende. No entanto, seu pai se chamava José Ferreira da Silva e sua mãe  Anna Rodrigues, o Resende era em homenagem ao padrinho. Se minha ancestral, sua filha, tivesse sido homem, e gerado filhos homens até a geração anterior à minha, eu provavelmente teria o sobrenome do padrinho de Domingos, que entrara para a família como nosso sobrenome. 

Os sobrenomes, no entanto, não tinham para os portugueses o mesmo significado que têm para nós hoje, era, na maioria das vezes, apenas mais um nome diferencial, geralmente escolhido aleatoriamente ou por uma das razões acima citadas, e que não passavam obrigatoriamente de pais para filhos. 
Conforme percebi lendo os inúmeros livros de registros da igreja católica a partir do século 16, as pessoas poderiam ter um ou dois "sobrenomes". Algumas delas traziam apenas o nome do pai, outros o do pai e o da mãe (nessa ordem, como é o costume espanhol adotado por alguns padres portugueses do passado; ou na ordem inversa, primeiro a mãe, depois o pai, como a ordem portuguesa), outros apenas o nome da mãe ou do lugar onde moravam, etc. Devido a isso, duas pessoas que tivessem o sobrenome Oliveira, por exemplo, e que morassem na mesma rua, não necessariamente seriam parentes, apenas morariam próximos a uma mesma oliveira que servia de referência a seus endereços.

O conto dos Brasões de Família
Muitos desses portugueses homônimos vieram para o Brasil, propagando os nomes de suas famílias em todas as regiões do país sem que tivessem entre si nenhuma relação de parentesco. Eles, vindos dos mais diversos lugares em Portugal, encheram o Brasil de Oliveiras, Machados, Pereiras, Souza, dos Santos, Silvas, Rodrigues, etc., sem que houvesse entre eles nenhum parentesco. Essa proliferação de sobrenomes iguais, no entanto, resulta interessante, quando, por exemplo, nos levam a olhar em redor com curiosidade todas as vezes que ouvimos chamarem alguém com nosso mesmo sobrenome. Me recordo que sempre que escutava ressoar o sobrenome Brandão, Machado, entre outros da minha família, logo me interessava em saber se a pessoa que compartilhava o mesmo sobrenome que eu poderia ser minha parente. Seria bom, por exemplo, ter um tio-bisavô chamado Machado de Assis, ou um primo-avô chamado Brandão Filho. Mas com a pesquisa genealógica, descobri, e.g., que Brandão (ou sua forma feminina Brandoa), era um nome próprio como Márcio ou João, e que era muito popular no Portugal seiscentista e setecentista e que, por isso, com o passar dos anos, muitas famílias que não mantinham nenhuma relação de consanguinidade adotaram-no como sobrenome.   
Certidão de batismo de meu penta-avô, Antônio Dias Brandão (notem que Dias é o segundo nome do pai e Brandoa o segundo nome da mãe), o qual deu o sobrenome de origem patro-matronímica à família de minha avó materna
(Livro de batismos da igreja católica, Arganil, Coimbra, Portugal.)
Dessa forma, infelizmente, a talentosíssima sambista Leci Brandão e eu não somos parentes, pois os únicos Brandão que mantém comigo laços de sangue comum são os descendentes do meu bisavô Mário, cuja família veio de Foz de Arouce e de Arganil em Coimbra, Portugal, deixando-o com a incumbência de continuar transmitindo o seu matronímico para as futuras gerações. Pois seus tios e seu único sobrinho morreram sem deixar descendentes, e sua tia casou-se com José Vaz Collaço, e deu aos seus filhos o sobrenome do pai deles.
Então, aqueles brasões de família que costumavam decorar meus cadernos ficaram sem sentido. Uma vez que não existe um ancestral único para as famílias portuguesas de mesmo sobrenome.

Por isso, a pesquisa genealógica, para quem quer conhecer a história do sobrenome de sua família é extremamente importante, se não pelo fato de saber a fundo de onde você veio, pelo menos, pelo conhecimento de sua ancestralidade que não permitirá que você pague rios e fundos pelo brasão de sua família numa dessas lojas de heráldica e pendure na sua parede um símbolo que nada tem a ver com sua história.
De posse do conhecimento da minha ancestralidade, eu mesmo fiz o brasão de minha família. Esse sim, é nosso. Convido você a fazer o mesmo, vale muito a pena, nos dá uma identidade coletiva única, uma sensação de pertencimento a um clã, e também é um passatempo muito interessante.
Abaixo, dois dos brasões da "Família" Brandão encontrados na internet, com os quais as lojas de heráldica ganham dinheiro propagando o mito do ancestral único.  




A questão dos semitas e africanos
Apesar de o Brasil ser um país fundado por Portugal, muitos de nós têm ancestrais que não são de origem portuguesa uma vez que da fundação do Brasil até o início do século 20, a grande maioria da população brasileira era composta por portugueses, cristãos-novos ou marranos (semitas convertidos à fé católica), africanos e indígenas.

Os semitas que foram obrigados a partir de 1492 a se converterem ao catolicismo, adotaram nomes cristãos ou aportuguesaram seus nomes (Baruch se tornou Bento, por exemplo). Como eram povos livres e de pele clara, tornaram-se "portugueses" sem muitos problemas (apesar da desconfiança dos fanáticos religiosos em relação à sinceridade de sua conversão). A muitos desses cristãos novos foram dados nomes católicos que os padres escolhiam aleatoriamente ou que demonstrassem gratidão ao padrinho que os acolheu. Daí, muitos semitas acrescentaram aos seus nomes cristianizados um segundo nome como Dias, Pereira, Brandão, Rocha, Pinto, Rodrigues, etc. (conforme citados no Livro dos Culpados da Santa Inquisição). Devido ao grande número de semitas que vieram para o Brasil, alguns pesquisadores acreditavam e divulgavam que todas os brasileiros cujos nomes se referissem a animais (Carneiro, Pinto, etc.), plantas (Oliveira, Pinheiro, etc.), objetos (Machado, Cunha, etc.) e religião (de Jesus, Das Virgens, etc.), seguramente teriam origem sefardita (judeus e árabes ibéricos convertidos à fé católica). No entanto, como já dito antes, esses eram nomes portugueses e cristãos dos quais os recém-convertidos se apropriavam. Então, mesmo que seu sobrenome seja um dos citados no referido livro da Inquisição, não quer dizer que você tenha origem semita.


Os noivos, escravos forros, adotaram os sobrenomes do seus ex-senhores.
(livro de matrimônios da freguesia da Sé, SSa, Ba.)
O que aconteceu com os sefarditas foi o mesmo que aconteceu com os africanos, com a diferença de que estes últimos podiam ter apenas um nome, que geralmente era escolhido por seus senhores e sempre faziam alusão aos santos ou aos seus padrinhos. Devido a isso, quando se lê as certidões de casamento de africanos escravos no Brasil antes da Lei Áurea, vemos sempre nubentes que possuíam um só nome. No entanto, quando um escravo recebia alforria, alguns deles adotavam o nome do seu senhor e o transferiam para seus filhos, que assim, perpetuaram vários sobrenomes que, originalmente, pertenciam às famílias portuguesas. Após a libertação dos escravos,  a prática de adoção de sobrenomes portugueses se tornou corriqueira. Todavia, os afrodescendentes brasileiros não devem descartar a ancestralidade do seu sobrenome português, uma vez que vários senhores de escravos geraram filhos bastardos com africanas e crioulas (mulheres de origem africana nascidas no Brasil), os quais, posteriormente assumiram os nomes de seus pais, e homens brancos portugueses casaram-se legitimamente com mulheres africanas suscitando descendência conforme se pode verificar nos livros de registros civis e da igreja. 



Por conta disso, se faz necessária uma busca histórica paciente a fim de conseguirmos traçar as origens sefarditas e identificarmos as nações de origem dos afrodescendentes no Brasil (num post futuro falaremos sobre genealogia indígena e africana). 

Por agora, espero ter ajudado com o conhecimento a respeito dos nomes e sobrenomes portugueses.

Para mais informações em relação à origem dos sobrenomes, a respeito dos sobrenomes de origem não portuguesa, entre outras curiosidades, recomendo os seguintes links:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Conven%C3%A7%C3%A3o_romana_de_nomes
https://pt.wikipedia.org/wiki/Nomes_e_sobrenomes_portugueses#Hipocorismo
http://www.momentosdehistoria.com/MH_03_05_01_interest.htm
http://www.familiaboaretto.com.br/index.php/sobrenome/12-a-origem-dos-sobrenomes-o-concilio-de-trento (italianos)
http://www.maiscuriosidade.com.br/25-curiosidades-super-interessantes-sobre-os-sobrenomes/

Próximo post: como ler a grafia dos documentos antigos.

Gostaram? então divulguem 😉

Tervetuloa Turkuun! Turku, a cidade da margarida gigante.

“Perplexidade” – essa é a palavra que toma conta de nós quando ouvimos falar de ataques terroristas. Pois, é difícil entender, por exem...