domingo, dezembro 20, 2009

Flamenco Nordestino - GRUPO FLAMENCANTES


Primeiro, as luzes se apagam e vem o silêncio; depois, o som da flauta transversal inunda o teatro com seu lamento doce e triste que se une à voz forte de Ivete Andrade e sua música Severina. Então, iluminados pelo sol poente e causticante do cenário árido a que as composições e o som queixoso de melodias nordestinas nos remetem, os dançarinos entram no palco.

Sobre eles os holofotes lançam feixes de luzes alaranjadas e vermelhas para introduzir-nos na dança sanguínea que em poucos minutos arrebatará nossa atenção inteira e nos extasiará por mais de uma hora.

No requebro de quadris femininos divinamente sensuais, na batida forte dos pés sobre o tablado, nas palmas cadenciadas que alternam em seu ritmo as batidas fortes, fracas, feitas de segundos de suspensão como estava o coração dos espectadores, surgem as Carmens com seus longos vestidos rodados, suas rosas nos cabelos amarrados em coque e seu jeito altivo, imperioso, soberano, de mulheres andaluzas.

Histórias se contam, abandonos, amores bandidos, meninas se tornam mulheres, o luar cobre o sertão. Vemos mãos se transformando em movimentos ora leves ora frenéticos e nos fazendo lembrar de animais de simbolismos ancestrais: o cisne dançando para encantar o deus, a serpente astuta que seduz o viajante incauto, a mulher de olhar agatiado e a ararinha azul se emplumando sobre os troncos secos do árido nordeste. Somos lançados sem dó ou piedade no palco para onde nossos olhos foram arrastados e onde por alguns pares de minutos nos deixamos escravizar pela beleza re-lida, nordestinizada, de um flamenco sincrético.

Os vestidos rodam, sobem, descem no compasso da música. As Carmens Severinas obedecem ao comando de Daniel Moura - um tom de leve masculinidade sobre o império das fêmeas -, se submetem à sua ordem, para depois conquistá-lo sutilmente, violentamente, inescapavelmente, com sua dança morna que vai tomando ares de calores desérticos ao passo em que os sons do sapateado, misturados aos instrumentos de corda e à percussão, ressoam na sala.

Entre as deusas desse Parnasso hispânico-nordestino, Tatiana Simas surge majestosa. Seu vestido amarelo se destaca entre o vermelho, laranja, ocre de suas companheiras. Naquele deserto de fados brasileiros, ela é o girassol que se abre não para absorver do astro rei, mas para irradiar uma beleza, uma tepidez, uma luz que nos hipnotiza durante todo o tempo de sua permanência em cena – ela se basta. Acompanhamos, arrebatados, cada ato, cada gesticular de braços, mãos e dedos, cada sinuosidade da dança lasciva, forte, inocente e de queixas solitárias, cada expressão dura naquele rosto suave de traços firmes, cada palavra muda que seu olhar lança sobre nós – ela e seus colegas são o sol em todo o seu esplendor, e nós, os espectadores, os astros que comovidos e submissos pedimos permissão para orbitar em sua galáxia durante os atos idiossincráticos de sua dança.

Na inovação que se dá em cada ato, os dançarinos, senhores da dança toda sua peculiar, nem nos deixam sentir falta das tradicionais castanholas, pelo contrário, fazem homem, menino, menina, mulher irem ao delírio, não conterem palmas, urras, assobios. E por fim, flores lançadas ao palco, deixam descansar os pés para receberem os aplausos dos que, em estado de graça, assistiram, na última sexta-feira, ao espetáculo benevolentemente trazido ao público por aqueles filhos de Terpsícore que ali estavam diante de nós.

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