segunda-feira, maio 26, 2008

Meu coração

Meu coração bate -
Mas sem um amor,
Sem uma música,
Sem um perfume.
Bate com um sangue negro
Coalhado, insípido, inodoro, infulgor.

Meu coração bate descompassado,
Trêmulo.
Parando aqui e ali,
Aqui e ali correndo,
Chorando aqui e ali.

Meu coração é como menino
Aperreado, malvado, tímido, indiscreto;
É rebelde, amoroso, calado,
É fogo-fátuo malévolo;
E às vezes me leva ao céu
E às vezes me leva ao inferno
E às vezes...

Meu coração bate – e por tão pouco!
E pouco – por tão tanto!
Ave de rapina, beija-flor de bonina
Vento, vento, vento.

Meu coração é o tempo que passou
E que não passa;
É dor, é flor, é graça;
São mil desejos e três mil desesperos.

Meu coração sou eu
E toda a angústia de viver em mim
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sábado, maio 24, 2008

Se Liga Bocão e o fenômeno Poltergeist

Em 1982 Steven Spielberg trouxe às grandes telas o filme que seria um dos maiores clássicos do terror: Poltergeist – O fenômeno. Com esse título, Spielberg já dava aos amantes do cinema a dica sobre a trama da história. Afinal, se não todos nós, a maioria dos cinéfilos viventes já ouvira o ressoar tilintante de correntes e barulhos estranhos que o nome Poltergeist traz à nossa memória coletiva, a partir de filmes como, e.g., Terror em Amitville.

O que Spielberg não nos deixou adivinhar, no entanto, foi a maneira como a história se desenrolaria – isso só se descobriria à medida que fossemos acompanhando a vida da família Freeling durante o desenvolver da trama, especialmente a partir dos olhos e ouvidos da pequena Carol Anne Freeling, interpretada pela atriz Heather O’Rourke – que ainda atuaria em Poltergeist 2 e Poltergeist 3, deixando o terceiro filme incompleto por causa de seu falecimento súbito.

Na história, os primeiros contatos da família Freeling com os Poltergeists se dão através do aparelho de TV no momento em que a estática – aquele chiado sem imagem - substitui as transmissões de programas durante a madrugada, momento em que as emissoras encerravam sua comunicação. A pequena Carol Anne Freeling se torna a partir de então um ponto de contato entre os dois mundos – o mundo dos vivos e aquele dos espíritos que vagam perdidos– ponto-chave do terror esperado pelo espectador que busca apenas o entretenimento da sétima arte.

Porém, apesar de o filme Poltergeist ser uma produção para entretenimento, não se deve observá-lo de um ponto de vista inocente – uma vez que Hollywood de maneira alguma é imparcial ou apolítica. Devemos lembrar, portanto, que no ano de produção de Poltergeist o mundo vivia os sobressaltos da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a ex-URSS, fato ao qual Spielberg não deixa de fazer menção no desenrolar da trama ao mostrar, por exemplo, imagens do presidente Ronald Reagan e cenas de guerra sendo exibidas na TV na hora do café da manhã. Entretanto, a despeito da leitura que se possa fazer no primeiro momento, o filme Poltergeist não é apenas uma história que fala do terror iminente de que forças inimigas – a URSS representada na figura dos Poltergeists – invadissem a casa dos estadunidenses no meio da noite e destruíssem tudo aquilo que lhes era caro e importante, destroçando suas conquistas e privando-os de sua liberdade – aliás, Freeling em inglês pode ser a junção de duas palavras dessa língua: free = livre e ling => linger = permanecer, persistir.

A idéia de que o inimigo invadisse sua vida de uma hora para outra no momento da estática – entenda-se aqui “momento de lazer, de relaxamento” - não parece se esgotar apenas na questão do conflito entre as duas superpotências oponentes, vai além disso. Metaforicamente, o aparelho de TV recebendo e reproduzindo apenas um chiado e imagens que ninguém entende, ou talvez, imagens distorcidas da realidade, pode ser comparado ao cérebro humano, à mente do telespectador que absorve e transmite todo aquele chiado e toda aquela distorção trazidos pelos programas de TV que bombardeiam nossas vidas todos os dias. Sob essa ótica, os Poltergeists deixariam de ser espíritos malévolos, energias fluídicas opositoras, demônios, eguns, encostos – ou como quer que queiramos defini-los – e passariam a se personificar na figura dos apresentadores com seus programas para a grande massa, tais quais Ratinho, Se Liga Bocão, Que Venha O Povo, etc.

Programas como esses, que aparentemente servem para entreter e/ou informar os cidadãos das coisas a que estes estão sujeitos - supostamente por conseqüência da falta de políticas públicas eficientes em sua cidade -, são, na verdade e na essência, Poltergeists, porque entram em sua vida sorrateiramente, possuem sua alma, destroem sua moral por calejar sua consciência e fazê-los, através da exploração insaciável e da banalização incansável das desgraças humanas, enxergar o mundo sob uma ótica apática – como a meninha Carol Anne muda e de olhos fitos sobre o monitor de TV -, imoral e despondente; sem lhes dar permissão de refletir, criticar e, por fim, exorcizar as mazelas a que foram/são expostos.

Por isso, talvez, seja preciso que nos coloquemos no papel da parapsicóloga Tangina ou do padre exorcista capazes de reverter e acabar com essa dessacralização, com esse estupro de nossas consciências e nossos lares, tomando, desse modo, a atitude do Sr. Freeling no final do filme Poltergeist: desconectando o aparelho de TV, e deixando-o lá, morto, sob a chuva, antes que seja tarde demais.

quarta-feira, maio 21, 2008

POESIAS


Eu faço poesia com olhos tristes,
De desencanto; com olhos sonâmbulos
Vagando pela névoa da noite.
Faço versos com olhos de pranto
Daqueles que perderam a mágica da vida.


Nos meus cantos ressoa um LÁ menor, solitário,
Com a 7a e com a 9a.
Depois do LÁ vem um MI, também menor,
Em desacordo.
Meus poemas são lamentos
De quem esqueceu os santos da infância
E de cujas fadas não se ouvem
Mais falar.

São memórias tristes e risos esquecidos
No canto da sala ou em outro qualquer lugar.
Minha lírica não é como a do Poeta
Evocando a vida, sem querer partir -
É, ao contrário, um Azevedo invocando Tânatos,
Anúbis ou outro etéreo ser.

Meus poemas são tristeza fria e geleiras eternas,
São mares, e mares, e mares
Sem nehnhuam terra.

quarta-feira, maio 14, 2008

PARIS HILTON E A PLEBE ROUGE

Hoje à tarde, indo de casa para o trabalho, tomei um daqueles coletivos onde se tem dois monitores tipo TV pendurados - esse tipo de veículação informativa é chamado de MIDIABUS - no teto no intuito de entreter e informar os passageiros.
Como estava sentado bem de frente a um dos monitores, pude absorver quase todo aquele dilúvio de informação despejado sobre mim como uma onda comunicativa dessa era tecnológica na qual, malgrado nosso, estamos afundados.
Passei por volta de 40 minutos dentro do ônibus, lendo, vendo e ouvindo o que a tecnologia podia me dar para enfrentar os engarrafamentos, esquecer o medo de ser assaltado e deixar para depois os problemas do dia-a-dia.
Nesse tempo, de olhos grudados na tela, o que vi foi um show de publicidade GRATUITA para uma das mais inúteis e fúteis personalidades que já vieram a este mundo: PARIS HILTON. Foram 10 minutos de informação detalhada sobre a vida da "patricinha mais amada dos EUA", cuja fortuna beira os.... milhões de dólares, cujas fotos rederam... que foi cotada para fazer o papel de madre Tereza de Calcutá no cinema... que isso, que aquilo... mais de 10 minutos de informação inútil sobre a vida fútil de PARIS HILTON, uma figura que 90% dos passageiros daquele coletivo jamais tinha ouvido falar - mas todos, inclusive eu, prestavamos atenção de todo ouvido, olhos e comentários a respeito.
Nada contra ter 10 minutos de informação inútil e narcótica sobre PARIS HILTON dentro de minhas 24 horas de existência diária, mas, no momento em que a América do Sul está se tornando um barril de pólvora com Evo Morales de um lado, Hugo Chavez de outro, panelaços na Argentina, preço do combustível subindo, inflação, metrô de Salvador há 10 anos para ser construído, Lula querendo um terceiro mandato etc, eu me pergunto qual seria mesmo o papel dessa SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO na qual estamos inseridos...


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